Asset tracing, tecnologia e estratégia de recuperação: uma conversa com Marcos Turbay
- Paulo César Almeida

- há 4 dias
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Recentemente, tive a oportunidade de retomar uma conversa com Marcos Turbay sobre alguns dos desafios atuais da investigação patrimonial e da recuperação de crédito, especialmente quando aplicadas ao mercado de ativos estressados.
Turbay possui uma trajetória de mais de três décadas dedicada a investigações corporativas, compliance e asset tracing. Iniciou sua carreira na Polícia Federal, fundou empresas especializadas em investigação posteriormente adquiridas pela Kroll e pela EY, atuou no Banco Safra na estruturação e gestão da área de busca de ativos e criou o Método Decipher, voltado à estruturação e condução de investigações. Mais recentemente, foi Superintendente no ASA, onde esteve diretamente envolvido com investigação e asset tracing aplicados ao mercado de distressed assets.
Foi justamente durante nossa atuação no ASA que tive a oportunidade de trabalhar diretamente com ele e aprofundar muitas das discussões sobre investigação patrimonial aplicada à recuperação de crédito.
Desta vez, nossa conversa partiu de uma questão que considero cada vez mais relevante: quanto tempo precisamos para saber se um crédito tem, de fato, um caminho de recuperação?
Na hora de precificar um ativo estressado ou de buscar novas oportunidades nesse mercado, o asset tracing pode ter um papel muito mais relevante do que simplesmente localizar patrimônio.
Em muitos casos, a investigação ainda é associada à etapa posterior, quando o crédito já está na carteira e os caminhos mais evidentes de recuperação não produziram resultado. Mas a mesma capacidade investigativa pode contribuir antes disso, ajudando a compreender melhor o risco, a qualidade da oportunidade e os possíveis caminhos de recuperação antes da tomada de decisão.
O desafio está em fazer isso dentro do tempo disponível.
Uma investigação aprofundada pode envolver patrimônio, participações societárias, vínculos pessoais e empresariais, movimentações patrimoniais, histórico do devedor, processos judiciais, garantias, atos notariais e uma série de outras fontes. Isoladamente, cada informação diz pouco. O valor está na capacidade de estabelecer relações entre elas.
E localizar um ativo é apenas parte do problema.
É necessário compreender se aquele patrimônio pode efetivamente ser alcançado, qual fundamento jurídico permitiria fazê-lo, quais obstáculos provavelmente surgirão, quanto tempo uma estratégia de recuperação poderá exigir e se o resultado econômico esperado justifica o caminho.
Em outras palavras, patrimônio identificado não é necessariamente patrimônio recuperável.
É nesse ponto que investigação patrimonial, estratégia jurídica e análise econômica começam a se aproximar.
Um imóvel pode ter valor relevante, mas estar sujeito a ônus ou circunstâncias que reduzam drasticamente sua utilidade para a recuperação. Uma transferência patrimonial pode parecer inicialmente irrelevante, mas adquirir outro significado quando analisada em conjunto com alterações societárias, relações familiares, cronologia processual e demais elementos do caso. Da mesma forma, uma estrutura empresarial aparentemente desconectada do devedor pode revelar vínculos relevantes quando sua formação e seu funcionamento são analisados historicamente.
A investigação, portanto, não deveria produzir apenas uma relação de bens e pessoas. Ela precisa ajudar a responder perguntas.
O que existe? O que pode ser alcançado? Por qual caminho? Em quanto tempo? E vale a pena perseguir?
Tecnologia como instrumento para ganhar velocidade
Parte importante da nossa conversa passou justamente pelo papel que a tecnologia pode desempenhar nesse processo.
Hoje, diferentes fontes permitem reunir uma quantidade de informações que seria muito mais difícil obter alguns anos atrás. O problema é que maior disponibilidade de dados não significa, necessariamente, maior inteligência.
A tecnologia pode ampliar significativamente a capacidade de reunir, cruzar e organizar informações. Pode reduzir trabalhos repetitivos, identificar relações e permitir que um volume maior de dados seja analisado dentro de uma janela menor de tempo.
Mas isso não elimina a necessidade de investigação.
Pelo contrário.
Quanto maior a capacidade de reunir informações, mais importante se torna saber o que procurar, quais relações merecem aprofundamento, quais hipóteses fazem sentido e quais elementos aparentemente relevantes não possuem utilidade para a estratégia de recuperação.
A tecnologia pode reduzir o tempo entre o dado e a análise. A decisão, entretanto, continua dependendo da capacidade de interpretar os fatos e compreender suas consequências jurídicas e econômicas.
Velocidade e profundidade
Esse talvez seja um dos pontos mais interessantes para o futuro do asset tracing.
No mercado de ativos estressados, existe uma tensão natural entre profundidade e velocidade. Uma investigação pode exigir tempo para amadurecer hipóteses e compreender estruturas complexas, enquanto determinadas decisões de investimento precisam ser tomadas dentro de janelas muito menores.
A resposta, na minha visão, não está em escolher entre uma investigação rápida e superficial ou uma investigação profunda e excessivamente demorada.
Está em desenvolver métodos, ferramentas e processos capazes de aproximar essas duas coisas.
Velocidade e profundidade não precisam estar em lados opostos.
Quanto mais estruturada for a coleta e organização das informações, maior poderá ser o tempo dedicado justamente àquilo que não pode ser automatizado: compreender relações, testar hipóteses, avaliar caminhos jurídicos e construir uma estratégia de recuperação.
Foi particularmente interessante discutir essas questões novamente com Turbay porque muitas delas dialogam com discussões que tivemos durante o período em que trabalhamos juntos, agora revisitadas diante das novas possibilidades tecnológicas e das transformações do próprio mercado.
Depois de uma trajetória dedicada à construção de metodologias de investigação, formação de profissionais e aplicação de asset tracing em diferentes ambientes, sua perspectiva sobre a evolução dessa atividade naturalmente torna esse tipo de conversa muito rica.
No final, talvez a evolução da investigação patrimonial não esteja simplesmente em encontrar mais informações.
Está em conseguir transformar informações dispersas em inteligência capaz de orientar uma decisão: o que existe, o que pode ser alcançado, por qual caminho e se vale a pena perseguir.
Algumas ideias interessantes surgiram dessa discussão. Talvez estejamos apenas começando a explorar o que é possível fazer a partir daqui.
A conversa também foi registrada em uma publicação no LinkedIn, disponível aqui.
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